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Ana Cássia Rebelo não esteve em Pripyat, a cidade fantasma que se foi com Chernobyl. Mas nem por isso.

Pripyat - Futuro Radioso


Encontro o meu pai de pijama de popeline vestido, sentado em frente do televisor. Beijo-lhe o cabelo para sentir o aroma da loção capilar que usa há muitos anos e sento-me no sofá. Trago o corpo cansado, os pés rebentados de tanto andar, sabe-me bem aquele descanso no silêncio crepuscular da sala do apartamento dos meus pais. O que é que estás a ver?, pergunto-lhe. Não me responde. Olha a televisão como se o aparelho fosse uma feiticeira, uma circe capaz de encantamentos e canções mágicas. O meu pai está hipnotizado.
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Olho à procura da razão de tal pasmo. Também eu, a partir do momento em que descalço os sapatos e pouso o olhar no televisor, fico cativa das imagens que vejo. São imagens de abandono e desolação que não consigo, a princípio, identificar. Uma piscina coberta, um tanque imenso, muito profundo, vazio, descarnado, consegue-se ver o que as águas cloradas, de plástico líquido, sempre escondem, o fundo de ladrilhos soltos, o preciso lugar onde se abate numa inclinação acentuada e abrupta, aqui temos pé, aqui já não temos, estamos a flutuar como se fossemos peixes. A estrutura de uma plataforma de saltos, com três níveis, mantém-se intacta apesar do tecto ter sucumbido a vários anos de tempestades. A seguir, vêem-se blocos habitacionais, são ruas e ruas, alamedas, avenidas, de blocos de apartamentos, todos iguais, casas que são como clones criados a partir de óvulos não fecundados, uns atrás dos outros, numa arquitectura assexuada, traçada em linhas paralelas e perpendiculares, esquisso de perfeição e austeridade. Porém, ninguém caminha por aquelas ruas. Ninguém habita aqueles apartamentos. Uma floresta de bétulas, vidoeiros, faias e salgueiros, irrompe pelos espaços abertos, as raízes grossas tomam conta dos passeios, das estradas e dos cruzamentos. Árvores frondosas, de folhagem brilhante e frutos que transportam a tentação do pecado, impedem as ruas de receber luz, fica a cidade com uma cor azulada e sombria. Em alguns locais há centáureas gigantes, carnívoras, que mostram os seus cardos roxos. A câmara passa depois para o interior dos apartamentos dos blocos habitacionais: tintas estaladas, objectos esquecidos, uma intimidade que foi devassada, interrompida; um cadeirão de braços forrado a napa vermelha, uma cadeira de espaldar tombada; posters gigantes de figuras do regime soviético, Brejvev, Chernenko, Gorbatchov; no parapeito solarengo de uma janela estilhaçada vêem-se dois peixinhos de borracha amarela; pelo chão desses apartamentos, em nichos de lixo e entulho, há muitas bonecas de corpo rijo, pose estática das pernas abertas, dormem de olhos abertos um sono eterno. As imagens sucedem-se em silêncio. Impressionam, por serem de uma beleza burlesca e desconcertante, as imagens de uma roda gigante com as suas cabines folheadas de chapa amarela, parecem campânulas solitárias balouçando ao vento. Há também um carrossel de cavalos funâmbulos que sorriem, mostrando a beleza da sua dentadura equídea. Pelas imagens que passam no ecrã, percebo tratar-se de uma cidade abandonada, uma pompeia moderna; é, não tenho dúvidas, uma cidade soviética, a avaliar pelos posters das figuras do regime, pela estatutária das praças, Lenine, Estaline, pelos punhos gigantes que se erguem por todo o lado. Que lugar é este, estranho, quieto, onde o bosque boreal cresce no meio das avenidas? Que cidade é esta, cristalizado no tempo e no espaço, que mostra a beleza do silêncio, da ausência, da escuridão, do precipício?
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Uma voz explica, por fim, a história daquele lugar. Trata-se de Pripyat, situada a 30 quilómetros de Chernobyl, cidade planeada para acolher cientistas, engenheiros, operários. Tinha um cinema, um teatro com uma grandiosa escada de caracol, várias piscinas, um hotel, muitas escolas e hospitais, possuía todas as infra-estruturas que o regime soviético considerava necessárias para o bem-estar do povo. Habitada por quem trabalhava na central nuclear, a média de idade dos cerca de quarenta mil habitantes da cidade rondava apenas os 26 anos. Para o regime todas as cidades deviam ser como Pripyat, planeadas, organizadas, assépticas, nenhuma cedência à espontaneidade e à liberdade, regras claras de distribuição dos habitantes, edifícios para casados, edifícios para solteiros, procedimentos para a utilização dos espaços públicos, só se é feliz com regras. Uma cidade assim era o que o regime queria, sem ponta de ranço do passado, em nenhuma esquina a beleza das cúpulas douradas da arquitectura bizantina. Ali, em Pripyat, só a alegria das cidades planeadas. Pripyat, cidade modelo, onde o futuro se cumpria no presente. No dia a seguir ao acidente, a cidade despertou na sua rotina, ignorando a dimensão da tragédia. Os jovens casais de cientistas, engenheiros, técnicos de manutenção, despediram-se com um beijinho. Um homem pediu à mulher que, se arranjasse beterrabas e repolho no mercado, lhe preparasse um borsch com natas azedas para o jantar; uma rapariga levou para a fábrica uma merenda de conservas de pepino e pães de ázimo; dois velhos planearam uma pescaria no rio, num recanto fresco, perto de um bosque de abetos, onde nadavam trutas gordas; uma mulher apanhou o comboio para Kiev na estação de Yanov e, ao olhar a cidade sentiu, sem a saber explicar, a nostalgia aguda dos espaços vazios. Nessa manhã, a vida continuou como se nada fosse, porém, a radioactividade, bicho invisível, já se havia espalhado por toda a cidade, entrara nas casas, gotejara pelos algerozes, penetrara nos solos, espreitara pelas frinchas, procurara o coração dos objectos, dos animais e das pessoas para aí se instalar. 
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Pela tarde, chegou a catástrofe: foram afixados em todos os blocos, em todas as portas, em cada espaço público, avisos de evacuação. Explicavam que, dado o acidente, em face do risco de radiação, a cidade teria de ser evacuada. Era uma evacuação temporária, os habitantes deveriam levar pouca coisa, elementos de identificação, qualquer coisa para comer, deixassem tudo como estava, trancassem os seus apartamentos, voltariam em breve. Depois, chegaram autocarros, mais de mil, vindos de toda a república. Os habitantes de Pripyat nunca voltaram. Ficou a cidade deserta, absolutamente quieta, envelhecendo. A floresta boreal avançou e cobras radioactivas treparam pelas paredes, aninhando-se dentro do corpo das bonecas que as meninas não puderam levar. Pripyat, cidade modelo, onde o futuro radioso nunca se cumpriu.
O documentário está prestes a terminar, o meu pai já tem o comando na mão, prepara-se para mudar de canal, quebrou-se nele o encanto. A última imagem que vejo é a de um homem jovem que fala num inglês truncado, próprio dos eslavos. Entra num apartamento, era ali que morava numa perpendicular à Avenida Igor Kurchatov. Aos domingos, explica, entrando num quarto, a minha irmã ia com a minha mãe ao Hotel Polissia preparar o desfile do 1º de Maio, eu ia com o meu pai à piscina e passava horas a nadar. Deambula pelas divisões em silêncio. Fui muito feliz em Pripyat, explica, por fim, o homem. Não há angústia na sua voz, nem amargura, não tem os lábios contraídos ou retesados, nenhum ardor lhe come as vísceras por dentro.
Levanto-me. Volto a beijar o cabelo do meu pai, também ele forçado a abandonar uma cidade e uma vida. Em mim, o feitiço nunca se quebrará, levo comigo, para sempre, aquele lugar de assombrações, onde não há homens mutantes, nem tumores crescendo nas crianças, nem velhos com quistos nascendo aos cachos, onde não há cães de duas cabeças, só bétulas gigantes de folhas verdes. 
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As imagens que ilustram este texto são da autoria de Paula Leite.