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Lourenço Cordeiro alerta para a perda de influência do Romance. A culpa é das Pessoas Conhecidas.

Ensaio Geral


«Sempre li muito, mas nesta fase da minha vida interessam-me sobretudo os ensaios»
, lembro-me de ler num daqueles micro-inquéritos que os jornais vão fazendo às Pessoas Conhecidas. As Pessoas Conhecidas sempre confessaram o seu gosto pela leitura - por enquanto ainda persiste a sensação de que ler é bom, mas nunca se sabe - e nunca esconderam um certo calculismo na resposta à pergunta «O que tem neste momento sobre a mesa de cabeceira?» As leituras mais recentes são cuidadosamente escrutinadas e o título que consideram ser mais respeitável é escolhido como resposta. Nada a criticar aqui: fosse eu uma Pessoa Conhecida e estaria sempre a ler obras de fundo, enormes e densas e inacessíveis, e sobretudo a reler (reler dá mais pontos porque insinua que já demos a volta ao catálago e já nada existe de novo que mereça a nossa atenção.)
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O que me inquieta é esta recente apetência para o «ensaio». A que deve este súbito amor das Pessoas Conhecidas pela não-ficção? Temo que a resposta não seja muito poética. As Pessoas Conhecidas querem ser, como qualquer um, Pessoas Respeitáveis, e para se ser respeitável é obrigatório ler-se coisas respeitáveis. E a ficção, no mundo dos questionários de última página, perdeu pedigree. A culpa, paradoxalmente, será das Pessoas Conhecidas que, não sendo escritoras, escrevem romances que não contribuem para o enobrecimento do género, para utilizar um eufemismo. Depois, isto tudo torna-se num enorme ciclo viciado onde já não é possível identificar quem é o criminoso e quem é a vítima. As editoras percebem que os romances das Pessoas Conhecidas vendem, as Pessoas Conhecidas nunca dizem que não a uma oportunidade de lançar obra no mundo, o público está sempre disposto a adicionar qualidades às Pessoas Conhecidas (para depois a queda ser maior), e quem lixa é o romance, a quem nunca ninguém perguntou nada e que é tratado como a garota de programa para  toda a ocasião.
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Resultado: chega o dia do inquérito e a Pessoa Conhecida tem pudor em dizer que está a ler um romance e salta logo para o ensaio (ou a poesia, no caso de a Pessoa Conhecida ser mulher - os homens, sabe-se, não lêem poesia). Como ainda não foi inventada a figura do ensaio-light, o terreno é seguro. Mas claro que isto é o reflexo de uma grande falácia: a falácia de que o ensaio nos explica melhor o mundo do que o romance. Talvez seja verdade que o ensaio é um género mais livre do que a literatura, no sentido em que no ensaio podem dizer-se coisas, enquanto que na literatura só é aceitável que as coisas sejam mostradas. Como disse famosamente Gerturde Stein a Hemingway, «observações não são literatura», e a tentação de qualquer romancista principiante é a de metralhar o leitor com as suas. E quando a ficção se enche de juízos, deixa de ser ficção. Já no ensaio é expectável que aconteça essa torrente de observações, que o leitor imprudente preguiçosamente poderá adoptar como suas. Deste modo, o ensaio só aparentemente torna o mundo um lugar mais fácil de perceber. Podemos ficar com mais opiniões mas com muito menos certezas.
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Mas  nota-se. Nota-se que o romance está a perder influência no modo como nos comportamos. Estamos a perder a cordialidade no trato porque estamos a perder a capacidade de observar com atenção as pessoas que nos rodeiam. O romance é essencial porque nos explica sem darmos por isso; ensina-nos sem nos domesticar. Cria referências sólidas contra as quais podemos avaliar a nossa pessoa e as outras pessoas. Ajuda-nos, sobretudo, a perceber que não estamos sozinhos e que isto não é um jogo de um contra todos. Aquilo que somos hoje devemos ao romance e à sua história. Sem o romance, seríamos uns brutos (como o fomos até ao romance).
Um exemplo? O amor. Aposto que as Pessoas Conhecidas gostam muito do amor.